quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ensaio sobre ausências

                                                                                                                          Aos meus tios



A mão ancorada sobre a primeira pilastra na entrada da igreja, protegendo a tez de um rosto cujos olhos planam em vertigem pelo chão. Os ouvidos desorientados ante soluços intermitentes, por todos os lados. O futuro aniquilado pelo súbito esvaziamento da vida presente, deixando naquilo que ainda se pode chamar peito - ausências.

Ali, parada, cabeça baixa, chora uma mulher.

Inicialmente, a palavra que falta - uma angústia por desconhecer os significados do silêncio, do afastamento traumático dos sons, dos sentidos. Num único golpe, o pior: também ausência de pele, de olfato, gestos afastados, a vida instantaneamente perdendo sabor e as lembranças fotográficas desastrosamente espalhadas em solo.

- Se o se nos pertencesse, nada seria.

Do corpo, apenas a água evaporando em estado febril, em lágrima - escorre pelo lábio alimentando as dores com sal. O desespero sensível porque todos os sonhos de ontem em diante vigoravam esperançosos, há 12 instantes. No chão instável consolador dos olhos da mulher que chora, as utopias completamente devassadas na infeliz água do corpo.

Sente o sabor do sumo amargo da vida depositado sobre a ferida.
Irreversível.

- Onde está o daqui em diante?

Amanhã: renovar o luto a cada abraço mendigo de conforto; suportar a absoluta solidão quando todos fizerem silêncio; sobreviver ao regime da memória que, lúcida, não se acostumará à falta. Agonizar em profundas respirações de tempo, em tempos e tempos...até adormecer.

Acordar: às vezes, num instante de distração, perder um sorriso para renovar o choro seguinte.Visitar a caixa de lembranças, as fotografias, os recados, as pequenas declarações em papel de pão e todo aquele carbono que, tal qual o amor, decompõe-se em frente à mulher.

Ausência que põe fim ao mundo, o silêncio – recomeço.

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