quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ame sua dor, moreno.

- Ame sua dor, moreno. E se retirou...

Minha retina vai acompanhando a poeira do seu chinelo como se fosse boca mendigando qualquer resto de saliva branca no canto do lábio.
Nossos olhares colidem no ar existindo a explosão somente pra mim,
que há anos estou na mesma mesa de bar do outro lado da rua.
Olho pra direita, a cadeira vazia conversa comigo sobre aquela lembrança dos corpos rolando na areia
...encenando felicidade.

[Todos os amigos foram embora, alguns poucos exibem filhos felizes enquanto eu escondo meu rosto dessa velha acusação)

Éramos plena felicidade inventada com sabor esquecido de ser adolescente.
Serpentinas, marchinhas e repetidos banhos de mar.
Queríamos ser estado de êxtase, caso não fôssemos angústia.
Eu desejei sobretudo lamber sua ferida pra sarar esta infecção que lhe causa febres intermitentes,
eu até ensaiei ser colombina animando a farsa.

Mas somos angústia.

Pichei os muros do meu quarto com seus nomes,
traduzi desejos,
acalentei ausências, mas não pude ser encanto.
E não que eu não quisesse desesperadamente ser alguma espécie de encanto que o fizesse me desejar no resto de quarta-feira de cinzas.

Eu não sou.

Há anos permaneço na mesma mesa de bar do outro lado da rua.
A cadeira vazia pede licença e se retira pra dormir.

Eu não consigo convencê-lo a abandonar a outra calçada.

4 comentários:

Aline Dias disse...

arruma outra coisa em outra calçada, que a cadeira vazia é mó palha.
=D
nem sabia que vc escrevia, darling.

leilane disse...

mile, muito lindo! Quero ler um livro seu!!!!

Amille disse...

Vou dar essa dica sua pra personagem.

raquel disse...

é morena, perigo é sua cadeira começar a esquentar e vc nem notar, dai, acredite minha amiga, você não tem pra onde correr.